Sunday, March 30, 2008

Dois elementos

Flores. Vinho. Velas. Jantar. Caixa de bombons em formato de coração. Música. Cheiros de essências. Carinhos . “Eu te amo” escrito em batom no espelho. Um vestido novo à sua espera na cama e um bilhete dizendo que eu já vou chegar.
Enquanto isso : Do outro lado do mundo, um casal mais ou menos parecido com o nosso deve estar planejando planos parecidos com os nossos e quer ter filhos como nós e quer construir uma casa como a nossa e quer discutir a relação como nós.
E eu me pergunto : Se existem tantas formas de amar porque a maioria insiste em demonstrar da mesma maneira o amor que elas sentem ? Se existe uma gama infinita de possibilidades para agradar quem amamos porque insistimos sempre em escolher a obviedade ?
E eu me respondo : Talvez seja pelo fato que todos nós temos dentro de nós um medo imenso e bobo : se machucar. Talvez seja porque amar de forma óbvia é uma forma de amor mais segura. Enfim, é complicado arriscar. Colocar a dor de uma amor-perdido e a satisfação de um amor-ganho numa mesma balança pode acabar dando múltiplos resultados. O amor , nesse caso, é isso : dois elementos diferentes que sentem sentimentos óbvios que demonstram de forma óbvia o que eles sentem para não se machucarem.
Flores mortas. Vinho acabado. Velas apagadas. Jantar comido. Caixa de bombons sem bombons, mas o formato de coração continua. Sem música. Cheiro de gozo. “eu te amo” ilegível. Vestido amarrotado e um bilhete dizendo que eu já fui.

5 comments:

Raven said...

talvez a maioria das pessoas tenha tanto medo que acham que algo é amor quando não passa de um momento de excitação maior. e nada mais óbvio do que isso...

Lúcia said...

Bonito isso... E sabe que eu nunca tinha pensado na forma como amamos, do jeito que você colocou?
No fim acabamos escolhendo a forma "segura" porque é a que conhecemos e na qual sabemos nos mover. Conhecemos os problemas que um dia viremos a enfrentar.
Procurar amar de outra forma é, sem dúvida, arriscado, mesmo que só o nosso lado inconsciente saiba disso.
Então continuamos sonhando com uma instituição pré-moldada, com casamento, igreja, casa juntos, filhos...
Lembro-me de uma frase, não sei se a li ou se a ouvi: "escolhemos, todos os dias, entre um novo sofrimento e o sofrimento de sempre." E vamos sempre estar inseguros, quer continuemos a perpetuar a tradição, quer inventemos uma nova forma de amar.
Insegurança faz parte. O medo faz parte. O fim faz parte.
E sigo acreditando que passamos por tudo isso pra aprender a amar.
Ô coisa difícil, o amor...

Beijos e boa semana!

Morganna said...

seria mais um desamor? e por que tantos? porque.

Lúcia said...

Exatamente, Pedro: esses espaços vazios nos ajudam a criar. Mais: eles pedem, imploram por algo, que se não for colocado lá por alguém, nos dão total liberdade de, como você bem escreveu, criar dentro desses lapsos.

É exatamente o que preciso fazer...

Beijos

FlaM said...

Ai Pedro! na minha correria dos últimos dias eu nao tinha podido ler este. Que lindo! Que texto delicado e bonito!
E que vontade de uma obviedade dessas na minha vida!!!
bjs, me fez tanto bem nossa conversa esclarecedora depois das atrapalhações!
beijinho, f