Friday, November 20, 2009

Um oceano de Saudade

Sentado numa pedra em frente ao mar revolto, observo as ondas imensas que agridem as pequenas rochas do litoral. O vento corta meu rosto, bagunça meus cabelos e trilha novos caminhos para as minhas lágrimas. Não vejo ninguém por perto. Não vejo ninguém ao longe. Só quem me acompanha é o mar. Só quem me ouve é o mar. Só quem me responde é o mar. Aquele mar infinito que me afasta e me aproxima do meu passado com a mesma facilidade.

Olho para o horizonte. Sempre quis tocar o horizonte. Sempre achei que o mundo fosse melhor por lá. Ele parece distante e inalcançável, assim como você. Eu achava que num piscar de olhos, você estaria ali: me esperando de braços abertos e com palavras bonitas. Aquelas mesmas palavras que eu ouvia quando era pequeno. Você dizia que eu seria forte como uma rocha e imponente como o mar. Você dizia que eu seria grande como as ondas e resistente como as pedras. Meu único desejo agora é mergulhar nessa imensidão azul e procurar a sua companhia nessas profundezas estranhas e desconhecidas.

Estou só. Eu e minhas velhas poesias. Poesias que falam de um tempo que não volta mais. Poesias de um tempo vivido e, agora, distante. Poesias entupidas de versos que carregam o peso do passado, o peso da memória, o peso da lembrança, o peso da infância que ficou para trás, o peso da saudade. Estou só. Eu e minhas fotografias antigas. Elas também trazem o cheiro do passado, o cheiro da memória, o cheiro da lembrança, o cheiro da infância que ficou para trás, o cheiro da saudade. Em uma delas, me vejo pequeno, sem lágrimas, vestindo uma roupa esquisita, colorida. Naquele tempo tudo parecia uma fotografia antiga. Não sei por que, mas a Saudade pra mim sempre foi um sentimento em preto e branco. É como se as cores daquele tempo também tivessem envelhecido com o passar dos anos.

Lembro que não faz muito tempo, eu ainda corria pelas ruas, rindo por tudo, rindo por nada, rindo apenas. Tinha uma vida e uma avenida inteira pela frente. Eu era livre para ser livre. Não tinha muros para me impedir. Não existiam grades para me prender. Não havia mãos para me segurar. Eu fingia ser um avião, meus braços eram minhas asas. Meus pés faziam o papel do acelerador e corriam rápido, muito rápido, como querendo alcançar imediatamente o outro lado do mundo, um amor efêmero, um sorriso curto, um gesto impensado. Meus pés sabiam que as coisas eram vãs, por isso não podiam perder tempo. Minha casa era o aeroporto, onde todos que me amavam me esperavam. Eu apenas fingia voar. Toda criança sonha em voar. Eu não era diferente.

Não sei quantas horas se passaram. Não sei quantos dias eu perdi... Mas eu continuo sentado na mesma pedra, olhando para o mesmo mar que agride com a mesma força as mesmas pequenas rochas desse mesmo litoral, relembrando o tempo que passou voando. Estou mais calmo. Mas a saudade continua. Minhas poesias parecem estar mais nítidas. Mas a saudade continua. Minhas fotografias parecem mais coloridas. Mas a saudade continua. E não é saudade dos amores que ficaram pelo caminho, da comida que já foi digerida, do poema que não foi escrito, da fotografia que não foi tirada... Sinto saudade desse mar infinito que leva e traz as minhas memórias como se estivesse ninando um filho.

Ah! Como eu queria poder fingir voar novamente, como quando eu era criança. Abrir meus braços e correr, acelerar e pousar no mesmo aeroporto, tendo a certeza que todos aqueles que me amam ainda me esperam de braços abertos e com palavras bonitas. Lembra? Você dizia que eu seria forte como uma rocha e imponente como o mar. Lembra? Você dizia que eu seria grande como as ondas e resistente como as pedras. Hoje estou um pouco maior, um pouco mais velho, mas ainda guardo em mim aquele desejo inocente de mergulhar nessa imensidão azul e procurar a sua companhia nessas profundezas estranhas e desconhecidas.

Saturday, June 20, 2009

Vivendo

[...]
Eu sei que você sentiu falta. Talvez não de mim, mas sentiu. Eu sei que você sentiu falta. Talvez você não diga, mas eu sei que sentiu. Eu sinto que você sentiu. Você nunca foi de admitir ou revelar os seus mais puros sentimentos. Talvez por medo de não saber colocá-los do coração pra fora. Talvez por não saber dizê-los da boca pra fora.Talvez por preservação. Quer saber? Você tem razão. Um sentimento preservado preserva a pureza e vale bem mais do que se pode imaginar. Por falar em imaginar, eu andei imaginando como seria o mundo se não a tivesse conhecido. Se não tivesse você andando ao meu lado, dobrando as mesmas esquinas, bebendo nos mesmos bares, comendo na mesma mesa, brigando nas mesmas brigas, deitando nas mesma cama, sorrindo em bocas diferentes, mas pelo mesmo motivo.

Senti que você não queria conversar. Mas mesmo assim falei. Contei como foi o Tempo sem você. Contei como foi levantar sem te ver. Contei que vi filmes, visitei museus, passeei por caminhos vazios, encontrei desconhecidos – que permanecerem desconhecidos. Desconversei com pessoas inúteis, me entreguei pra sentimentos desnecessários, desvirginei paixões efêmeras, me encantei com situações perversas, questionei religiões diversas, tropecei em covas abertas, condenei inocentes, perdoei culpados, enganei meus princípios, mas aceitei as conseqüências.
[...]

Wednesday, June 10, 2009

Sonhando na chuva

[...]

A chuva cai friamente sobre o asfalto ainda quente. Não sei quanto tempo vai durar, não sei quantas pessoas, quantos cães, ratos, gatos, vão se molhar. Fico imaginando você saltitando pelos becos, dançando com a própria sombra. Cantarolando músicas que não existem, imaginando amores que não insistem, derrubando paixões que persistem...
E na calçada distante, teu sonho te espera, paciente. Enquanto eu te admiro como se você fosse o sonho, não ele.
[...]

Tuesday, March 31, 2009

O amor no tempo da crise

[...]
Toda crise se torna pequena e distante quando se tem, ao lado, um grande amor.

É amor, parece que a crise também afetou o nosso amor. Até nas palavras economizamos. Não falamos mais bom-dia nem boa-tarde e o boa-noite agora só é dito por falta do que dizer antes de dormir.

Perdemos o hábito de ganhar uns minutos a mais com os afagos diários – tão necessários. O café da manhã foi esquecido. O chá da tarde foi deixado de lado. A troca de olhares está menor e o toque está cada vez mais distante.

É amor, parece que a crise também afetou o nosso amor. Reduzimos os gastos, os gestos, os afagos, os apelos. Cortamos pela metade os elogios, as ofensas, os segredos, as conversas telefônicas, as carícias virtuais e não usamos mais códigos, só nossos, para dizer um pro outro o que só nós entendemos.

Ajustamos alguns valores. Questionamos o quanto custa ser feliz. Pagamos as últimas contas não-pagas. Apagamos as luzes. Fizemos pequenos cálculos e vimos que é impossível viver sem um grande amor.
[...]

Friday, March 27, 2009

Amostras

[...]
Quero conservar o medo de te perder. É justamente ele que me mantém seguro sobre o que sinto por você. Um sentimento puro, transparente, que deixa à mostra: sangue, lágrima, dor e uma enorme vontade de te ver. Um sentimento puro, transparente, que deixa à mostra: risos, sorrisos, gargalhadas e uma imensa vontade te continuar te vendo. Um sentimento que deixa amostras de como tudo vale a pena. Que deixa amostras de dias bons, sonhos bons, sonos longos e bons sons. Um sentimento que deixa amostras de um tempo feliz, um tempo de paz.

Quero preservar a perdição que é ter medo de te perder. É justamente ela que contém meus impulsos. Prende meus absurdos. Amarra minhas intenções e impede que minha loucura alcance o ponto de equilíbrio dos seus desequilíbrios. Às vezes me assusto, não por medo, mas por não entender e não saber como agir. Mas não posso deixar de me assustar, não posso perder esse medo. É ele que faz querer te entender e, por conseqüência, me entender.

Se não houvesse esse medo, não haveria você. Se não houvesse você, não haveria sentido. Se não houvesse sentido, porque eu sentiria medo?
[...]

Monday, March 23, 2009

A (re)volta da sua ida

[...]
Nas suas intermináveis idas, eu tentava ocupar o espaço que você deixava com poemas densos, músicas infinitas e livros sem fim. Mas tudo era um pouco em vão. Tentar te esquecer era quase impossível. Sempre achei mais fácil tentar esquecer que tento te esquecer do que tentar te esquecer. A vida me deu a certeza que não ter você é te ter de outra forma. Não ter você é te pensar. E quando te penso, te vejo presente. Te vejo aqui. E nesses pensamentos acabo enxergando você de tantas formas, com tantos conteúdos, com tantos absurdos, com tantas vestimentas, com tantos sentimentos, com tantas alegrias. Contanto, eu não lembro o tanto que eu já chorei esperando um sinal de vida, mesmo que seja só pra me avisar que você morreu.

Ontem, por exemplo, e por costume, vi os seus olhos marejados e chorei. Não chorei apenas porque via tristeza no seu olhar. Chorei porque a sua alegria teimava em querer escapar das suas mãos, da sua pele, dos seus cabelos, do seu corpo – como se você não tivesse o direito de ter, também, pequenas doses diárias de felicidade momentânea. É raro ver um sorriso compartilhar a mesma lágrima com o choro. Eles se entendem, mas é um entendimento que quem chora ou ri não entende.

Suas lágrimas são misturas. Misturam o tempo que passou com o tempo que não existe, misturam os dias que você dormiu com as noites que não acordou, misturam passeios, anseios, sonhos, paixões antigas, amores futuros, vômitos, melodias inconscientes, loucuras conscientes, tropeços, poemas e, tenho certeza, que elas guardam um pouco de mim. Sempre fui de alguma forma, causador dessa sua dor. Não entenda “dor” por mal, amor. A dor que me refiro é a dor necessária dos amantes. É aquela dor que quem ama sabe que não tem a pretensão de destruir. É aquela dor que quem ama sabe que não vem pra derrubar. É aquela dor que [...] você sabe, amor. Você sabe que eu quero me derreter e dividir as suas alegrias e as suas tristezas. Todas elas. Você sabe que hoje, eu vou dormir um pouco mais feliz, ou triste, porque, pelo visto, suas intermináveis idas terminaram.
[...]

Monday, January 26, 2009

Lágrimas alegres

[...]
Enquanto eu amava, ela derramava.
Bêbada de sono e de saudade. É assim que ela chegava em casa todas as noites desde que a conheci. Contava sobre seu dia e as horas que ficava acordada tentando dormir, desperdiçando o sonho bom que poderia ter vindo depois desse dia ruim.
Ela ainda não sabia exatamente como distinguir a dor que sentia do amor que queria. Mas, por incrível que pareça, era feliz. Feliz a ponto de chorar. Feliz a ponto de não querer sorrir. E guardava todas as lágrimas num frasco transparente, antigo, um pouco quebrado e sujo que chamava Alegria.
E eu, alegre, a amava. E eu, bobo, a amava. E eu, contente, a amava. E eu, descontente, a amava. E eu, obediente, a amava. E eu, compulsivo, a amava. E eu, ausente, a amava. E eu, distante, a amava. E eu, grudado, a amava. E eu, amedrontado, a amava. E eu, vazio, a amava. E eu, completamente, a amava. E eu, simplesmente, a amava. Sem adjetivos, objetivos, sem conceitos, preconceitos, sem crenças, promessas. Eu, simplesmente, a amava.
E ela, bêbada de sono e de saudade, derramava a alegria pelo chão, pelo teto, pelas paredes, pela pele, por mim, sem enxergar que o que se derrama sobre um amor efêmero não dói porque foi vivido, mas dói porque não foi eterno.
[...]