Monday, January 26, 2009

Lágrimas alegres

[...]
Enquanto eu amava, ela derramava.
Bêbada de sono e de saudade. É assim que ela chegava em casa todas as noites desde que a conheci. Contava sobre seu dia e as horas que ficava acordada tentando dormir, desperdiçando o sonho bom que poderia ter vindo depois desse dia ruim.
Ela ainda não sabia exatamente como distinguir a dor que sentia do amor que queria. Mas, por incrível que pareça, era feliz. Feliz a ponto de chorar. Feliz a ponto de não querer sorrir. E guardava todas as lágrimas num frasco transparente, antigo, um pouco quebrado e sujo que chamava Alegria.
E eu, alegre, a amava. E eu, bobo, a amava. E eu, contente, a amava. E eu, descontente, a amava. E eu, obediente, a amava. E eu, compulsivo, a amava. E eu, ausente, a amava. E eu, distante, a amava. E eu, grudado, a amava. E eu, amedrontado, a amava. E eu, vazio, a amava. E eu, completamente, a amava. E eu, simplesmente, a amava. Sem adjetivos, objetivos, sem conceitos, preconceitos, sem crenças, promessas. Eu, simplesmente, a amava.
E ela, bêbada de sono e de saudade, derramava a alegria pelo chão, pelo teto, pelas paredes, pela pele, por mim, sem enxergar que o que se derrama sobre um amor efêmero não dói porque foi vivido, mas dói porque não foi eterno.
[...]

6 comments:

um báu said...

"Sem adjetivos, objetivos, sem conceitos, preconceitos, sem crenças, promessas"
Resume bem o estado pouco racional em que se encontra um ser apaixonado!

"Amantes e loucos têm cérebros tão fervilhantes, tão cheios de fantasias, que superam tudo o que a fria razão pode entender". (Sonho de Uma noite de Verão, Shakespeare).

=***

Camila. said...

Pedro Gabriel.
É imenso o prazer de senti-lo nas palavras. E bem sei. Amar. Sem condições. Amar e só. Infinitamente, trôpegos na alegria da vida em saudade.

Morganna said...

eu continuo tranbordando ao te ler.
brigada. :)

L. said...

eu comecei a ler e pensei "vou colar essa parte", daí continuei e quando terminei quis colar o texto inteiro. uma das coisas mais bonitas e doídas que eu li nos últimos tempos.

Ainda não, quem sabe um dia said...

Concordo 100% c L. Aff , como dói, mas não conseguia parar d eler e gostar e apreciar!

Ivan Cavalcante said...

O que mais me prendeu ao texto, além claro da imensa criatividade, foi seu estilo. Um texto sucinto, bem estruturado mas com uma gama de informações tamanha. Dizem que é facil falar de amor, mas nao é. Parabéns mesmo.